Coreanos eram principais clientes de restaurante fechado por vender carne de cachorro em SP

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Por: Leonardo Guandeline e Marcelle Ribeiro, O Globo




SÃO PAULO - Um dos dois restaurantes interditados nesta quinta-feira no bairro do Bom Retiro, região central de São Paulo, após denúncia de venda de carne de cachorro era frequentado principalmente por pessoas da comunidade coreana de São Paulo. A Polícia Civil, com a ajuda de uma intérprete, descobriu que o cardápio, escrito em coreano, oferecia um prato à base de carne de cachorro vendido por R$ 250. O menu, inclusive, era ilustrado com uma gravura do animal.

A 2ª Delegacia de Saúde Pública do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPCC) chegou aos estabelecimentos - nas ruas Guarani, 204, e Silva Pinto, 423 - depois de receber uma denúncia. Segundo a polícia, há ligação dos restaurantes com um abatedouro onde cães eram mortos, no município de Suzano , na Grande São Paulo. Quatro pessoas foram detidas - dois proprietários de um dos restaurantes e um casal responsável pela captura e morte dos cães - e outras quatro foram levadas para a delegacia. Outros estabelecimentos da região estão sendo investigados. Os restaurantes foram interditados e multados pela Vigilância Sanitária Municipal.

Num freezer encontrado no abatedouro clandestino estavam 60 quilos de carne de cachorro preparados para envio aos restaurantes. Dois gatos inteiros, congelados, estavam armazenados, mas a polícia não sabe o destino que seria dado a eles. Segundo o delegado Anderson Pires Giampaoli, responsável pela investigação, os restaurantes compravam em média 10 cães por semana.

Segundo vizinhos dos estabelecimentos no Bom Retiro, os clientes vinham principalmente à noite e chegavam em carros de luxo.
- O pessoal da comunidade coreana frequenta sempre o restaurante à noite. São pessoas que chegam aqui em 'carrões'. Quem trabalha na região nem imaginava que eles vinham comer carne de cachorro - diz Sandro Félix, motoboy, vizinho de um dos restaurantes.

- Trabalho há muito tempo na região e aqui tem vários restaurantes coreanos. Não sei se vendem carne de cachorro, mas o movimento é grande principalmente de gente da colônia - disse o comerciante Edson Freitas, que trabalha na região há 43 anos.

Segundo ele, o movimento em todos os restaurantes do Bom Retiro costuma ser maior à noite, quando a maior parte da lojas já fechou.

O estabelecimento que oferecia a carne de cachorro, localizado na Rua Silva Pinto tem fachada discreta, sem placas que anunciem tratar-se de um um restaurante típico. Um corredor leva às mesas. Somente quem conhece o lugar, sabe que ali são servidas refeições. Nesse estabelecimento, a Vigilância identificou carnes impróprias para consumo e coletou amostra de carne não identificada.




O outro estabelecimento, localizado na Rua Gaurani, apesar de pequeno, tem identificação na fachada, mas não teria alvará de funcionamento, segundo a polícia. O local, além de carnes impróprias para o consumo, os fiscais constataram sujeira na cozinha e na área das mesas, além de falta de roupas adequadas dos funcionários para preparo dos alimentos.

Os dois estabelecimentos, ainda de acordo com a polícia, tinham relação com o abatedouro clandestindo em Suzano. Um deles comprvava a carne do local, segundo apurou a polícia. No outro estabelecimento o telefone do abatedouro foi encontrado em uma agenda sobre o balcão.

Na tarde desta quinta-feira, agentes da Polícia Civil e da Vigilância Sanitária estiveram nos estabelecimentos e recolheram amostras da carnes para análise. Uma amostra do material será levada para o laboratório da Vigilância Sanitária municipal para análise de DNA.

Segundo Flávio Damas, técnico da Vigilância Sanitária municipal, só o exame poderá comprovar mesmo tratar-se de carne de cachorro.

- Nós já identificamos carne de peixe e bovina. Recolhemos amostras da carne que não conseguimos identificar. O próximo passo é realizar uma análise - diz Damas.

Abatedouro clandestino funcionava nos fundos de borracharia

O abatedouro funcionava nos fundos de uma borracharia e os cães eram capturados nas ruas, atraídos com ossos e carne. No quintal, eram engordados e ficavam à espera das encomendas. O abate era comandado pelo casal Roberto Moraes, de 46 anos e Roseli Nascimento, de 39 anos. Os dois foram presos na manhã desta quinta-feira no abatedouro, no bairro Miguel Badra.

Segundo a polícia, Moraes era responsável pela captura dos cães e pelo abate, feito a machadadas. A mulher dele fazia o contato com os restaurantes.

O esquema de captura de cães para consumo humano existia há três anos. Cada animal morto era vendido por R$ 180 a R$ 220. No quintal do abatedouro, a polícia encontrou um cachorro ainda vivo que seria abatido, duas mesas, ganchos, restos de animais queimados e outros equipamentos.

Os quatro presos vão responder por crime contra as relações de consumo, contra o meio ambiente e por formação de quadrilha.

- O casal alega que não via problema na prática e queria ganhar um dinheiro extra - diz o delegado.

Segundo a polícia, as partes dos cães que não conseguiam aproveitar eram incineradas no próprio local de abate.

Como os cães eram capturados nas ruas, a polícia suspeita que poderiam ter doenças transmissíveis ao ser humano.

No abatedouro foi apreendida uma agenda e a polícia investiga se outros restaurantes adquiriam a carne de cachorro. Os quatro envolvidos, se condenados, podem pegar de três a 10 anos de prisão.

Hábito cultural

Se no Brasil a venda e o consumo de carne de cachorro são proibidos, na Coréia do Sul, o prato é facilmente encontrado em restaurantes da capital Seul e de outras cidades. Está na cultura dos coreanos degustar essa carne, assim como fazem os vietnamitas e os chineses. Nos últimos anos, entretanto, com o aumento do fluxo de turistas que visitam o país, o governo trabalhou para esconder esse hábito. O objetivo era não chocar os visitantes. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, por exemplo, vários restaurantes cuja especialidade era a carne de cachorro foram fechados.

Hoje, os locais que oferecem a iguaria não fazem propaganda escancarada na entrada, mas quem quer provar o prato não tem dificuldade em encontrar. Basta ter um bom guia coreano. O que também choca os menos acostumados a comer a carne de cachorro é a forma como o prato é preparado. Os chefs de cozinha coreanos costumam matar o animal por enforcamento ou espancamento, métodos considerados ideais para obter uma carne mais macia.

Coreanos são maioria no Bom Retiro

Os coreanos começaram a chegar ao bairro do Bom retiro nos anos 80. Eles compraram a maior parte do comércio local, que era administrado por imigrantes judeus, que se aposentaram ou morreram, e os filhos decidiram não levar o negócio adiante. Os judeus foram gradativamente saindo do bairro, e se mudando para Higienópolis ou Jardins.

O que antes era comércio familiar, na mão dos judeus, tornou-se uma estrutura empresarial com os coreanos. Além dos negócios, eles compraram casas e apartamentos do bairro. Atualmente, os coreanos representam cerca de 70% das 1.200 empresas do Bom Retiro, segundo dados da Câmara de Dirigentes Lojistas do bairro.

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